<?xml version="1.0" encoding="utf-8"?>
<rss version="2.0" xml:base="http://mutgamb.org"  xmlns:dc="http://purl.org/dc/elements/1.1/" xmlns:wfw="http://wellformedweb.org/CommentAPI/">
<channel>
 <title>Mutirão da Gambiarra - nomadismo</title>
 <link>http://mutgamb.org/taxonomy/term/425/0</link>
 <description></description>
 <language>pt-br</language>
<item>
 <title>Lucy é da Etiópia – quem é bastardo?</title>
 <link>http://mutgamb.org/blog/Lucy-e-da-Etiopia-%E2%80%93-quem-e-bastardo</link>
 <description>&lt;p&gt;*esse post &amp;eacute; uma colabora&amp;ccedil;&amp;atilde;o especial de Fabiane Borges e Hilan Bensusan, mais fotos lindas &lt;a href=&quot;https://picasaweb.google.com/108094216176169619701/AnarqueologiaNaEtiopia&quot; rel=&quot;nofollow&quot;&gt;aqui&lt;/a&gt;.&lt;/p&gt;
&lt;p class=&quot;rtecenter&quot;&gt;&lt;img alt=&quot;&quot; src=&quot;http://mutgamb.org/sites/mutgamb.org/files/427744_10150571836524470_598339469_8655572_2101148939_n.jpg&quot; width=&quot;640&quot; /&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p align=&quot;JUSTIFY&quot;&gt;Salom&amp;atilde;o e a rainha de Sab&amp;aacute; que hist&amp;oacute;ria bonita. A rainha preta, atrevida, de gestos exuberantes. Ele prof&amp;eacute;tico, galinha, exot&amp;eacute;rico, prenhe de duas ou tr&amp;ecirc;s civiliza&amp;ccedil;&amp;otilde;es epid&amp;ecirc;micas. A promessa na cama: honra esse acasalamento Salom&amp;atilde;o, ou essa foda ser&amp;aacute; em v&amp;atilde;o? Esse n&amp;atilde;o foi o princ&amp;iacute;pio, mas a rainha voltou gr&amp;aacute;vida de Jerusal&amp;eacute;m, e isso sim foi um esc&amp;acirc;ndalo inaugural, que desviou o fluxo do que hoje chamamos Eti&amp;oacute;pia para lados n&amp;atilde;o previstos. Ou teria coincidido a fertilidade da rainha com um plano bem armado? Seja como for Eti&amp;oacute;pia fundou nessa gravidez o pilar da sua hist&amp;oacute;ria. N&amp;atilde;o &amp;eacute; assim que come&amp;ccedil;am as hist&amp;oacute;rias bastardas?&lt;/p&gt;
&lt;p align=&quot;JUSTIFY&quot;&gt;A Eti&amp;oacute;pia &amp;eacute; a latrina da hist&amp;oacute;ria branca. O resto da &amp;Aacute;frica &amp;eacute; outra hist&amp;oacute;ria: pag&amp;atilde;, primitiva, venenosa &amp;ndash; o lugar de onde as bruxas nunca deveriam ter saido. A da Eti&amp;oacute;pia &amp;eacute; a hist&amp;oacute;ria monote&amp;iacute;sta, crist&amp;atilde;, devota, vestida, cheia de igrejas, santos, anjos, altares, reis, conquistas, cruzadas, luta contra os mouros, orgulho &amp;eacute;tnico, obedi&amp;ecirc;ncia e apego as t&amp;aacute;buas da lei, montanhas sagradas, peregrina&amp;ccedil;&amp;otilde;es &amp;agrave; terra santa, p&amp;aacute;scoas, natais, epifanias. Mas &amp;eacute; hist&amp;oacute;ria negra. E no escuro, todas as datas s&amp;atilde;o pardas &amp;ndash; n&amp;atilde;o da pra ver mais do que lendas, vers&amp;otilde;es, boatos. Salom&amp;atilde;o negro? Davi mulato? Abra&amp;atilde;o retinto? A Eti&amp;oacute;pia pega a B&amp;iacute;blia, que parecia santa, branqu&amp;iacute;ssima, e a cobre com as imagens da virgem negra, do cristo de l&amp;aacute;bios grossos, da crucifica&amp;ccedil;&amp;atilde;o em uma paisagem africana. Rezam missas em igrejas, mas ao lado da mirra e do incenso queimam a erva de Salom&amp;atilde;o, um punhado de canabis que deixa todos mais pr&amp;oacute;ximos do c&amp;eacute;u. Para a hist&amp;oacute;ria branca, um c&amp;eacute;u inventado, inmoderno, incivilizado, longe dos fatos, perto das brumas. Era pra jogar estas brumas todas privada abaixo e puxar a descarga. (O que &amp;eacute; a descarga? Os batalh&amp;otilde;es de turistas que chegam l&amp;aacute; todos os dias para tornar o pa&amp;iacute;s em terra ex&amp;oacute;tica, e depois em curiosidade e depois os et&amp;iacute;opes em garcons, hoteleiros, guias tur&amp;iacute;sticos e nativos exibicionistas que passam a ser contrapartida do pre&amp;ccedil;o da excurs&amp;atilde;o.) Mas a descarga vaza &amp;ndash; na &amp;Aacute;frica as tecnologias emperram, as institui&amp;ccedil;&amp;otilde;es desandam, as certezas murcham &amp;ndash; e vaza por todos os lados. Aparecem na Jamaica uns devotos do &amp;uacute;ltimo rei da Eti&amp;oacute;pia, um homem que se chamava Ras Tafari. Eles espalham a erva de Salom&amp;atilde;o, os &lt;em&gt;dreadlocks&lt;/em&gt; no cabelo negro, os livros sagrados dos Et&amp;iacute;opes escuros e temperam isso com reggae. E negro, &amp;eacute; lenda &amp;ndash; mas as lendas resistem aos regimes da hist&amp;oacute;ria oficial.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Quando o jovem Menelik foi visitar o pai Salom&amp;atilde;o, este pediu para que ficasse em Jerusal&amp;eacute;m, mas ele j&amp;aacute; sabia que n&amp;atilde;o abriria m&amp;atilde;o do seu reinado, assim como sua m&amp;atilde;e sempre fincou o p&amp;eacute; na &amp;Aacute;frica. Com o altar, carregou consigo as t&amp;aacute;buas da Lei de Mois&amp;eacute;s, a arca sagrada, que at&amp;eacute; hoje &amp;eacute; motivo de orgulho e culto da igreja, e um dos segredos da &amp;aacute;ura sagrada de todo o pa&amp;iacute;s. Junto com a arca veio mais 1000 pessoas, que instauraram seus princ&amp;iacute;pios judaicos por onde chegavam. Essa pode ter sido a principal liga&amp;ccedil;&amp;atilde;o da Eti&amp;oacute;pia com o monote&amp;iacute;smo. Mas n&amp;atilde;o s&amp;oacute; isso. N&amp;atilde;o se sabe ao certo o que aconteceu com todos os templos pag&amp;atilde;os, alguns sobreviveram, com seus locais de sacrif&amp;iacute;cio, deuses e o sol e a lua desenhados por toda parte. Sendo filho de Salom&amp;atilde;o n&amp;atilde;o se esperaria esperaria que tolhesse qualquer misticismo. Gostava das brumas. Ele viu em Jerusal&amp;eacute;m como se fabrica sagrados. Sacrog&amp;ecirc;nese salom&amp;ocirc;nica. Come&amp;ccedil;ou a fazer de Axum sua Jerusal&amp;eacute;m: obeliscos, arca sagrada, um caminho de pedras pela montanha at&amp;eacute; o pal&amp;aacute;cio da matriarca. Menelik fez da Eti&amp;oacute;pia um celeiro de religi&amp;otilde;es &amp;ndash; trouxe isso com o p&amp;oacute; de Jerusal&amp;eacute;m. Seus herdeiros foram peregrinos, teocratas, guardi&amp;otilde;es das tribos de Israel. De onde mais vieram esstas tribos? Dos filhos de Jac&amp;oacute; que foram para a &amp;Aacute;frica. Ou ent&amp;atilde;o como? Do rio Nilo, alguns do Cairo, outros de Gize, alguns do Sud&amp;atilde;o, outros de Gondar, da beira do lago Tana onde nasce o Nilo azul. Quando as vers&amp;otilde;es heterodoxas levantam o peito e n&amp;atilde;o aceitam serem corrigidas, a hist&amp;oacute;ria fica caudalosa &amp;ndash; cheia de lendas verdadeiras demais para n&amp;atilde;o serem fic&amp;ccedil;&amp;atilde;o. Cana&amp;atilde; era um posto avan&amp;ccedil;ado dos povos de Israel no Nilo. Foi ali que eles encontraram o babil&amp;ocirc;nico Abra&amp;atilde;o inconformado com os deuses serem inanimados. Foi ali que eles o acolheram monoteus, pastores, devotos da palavra escrita. E quiseram fazer uma Jerusal&amp;eacute;m por l&amp;aacute; &amp;ndash; como Axum, como Lalibela, como Shashamane, a terra sagrada si&amp;ocirc;nica dos rastafaris, concedida pelo rei messias dos et&amp;iacute;opes, o Ras Tafari ele mesmo, que adotou o nome de Haile Selassie. &amp;Eacute; que os et&amp;iacute;opes compartilham o segredo da sacrog&amp;ecirc;nese. Como Haile Selassie se tornou Jesus Cristo &amp;eacute; dif&amp;iacute;cil de dizer exatamente. Mas o negro baixinho e galante tinha id&amp;eacute;ias brihantes e se comportava como um verdadeiro Messias, fazendo coisas que pareciam milagres, como abolir a escravid&amp;atilde;o (oficial), reconhecer a nacionalidade dos descendentes de escravos et&amp;iacute;opes mandados para o Caribe,ou ainda, fazer sucesso nos EUA. Heile Selassie era o Le&amp;atilde;o da tribo de Jud&amp;aacute;, a reencarna&amp;ccedil;&amp;atilde;o de Jesus, e Shashamane entre uma baforada e outra de canabis sativa, cultua sua imagem de filho do Divino.&lt;/p&gt;
&lt;p align=&quot;JUSTIFY&quot;&gt;Nas &amp;eacute;pocas de Timkat (epifania) toda esses reis, monges, rainhas e profanos do norte ao sul do pa&amp;iacute;s fazem prociss&amp;atilde;o com a Arca Sagrada (uma c&amp;oacute;pia), entre batidas de tambores e toque de trombetas comemoram o batismo de Jesus, batizando os novos fi&amp;eacute;is e fazendo vig&amp;iacute;lias de uma semana, onde a comunidade local muda seu cotidiano e vai fazer ora&amp;ccedil;&amp;otilde;es cerca dos tanques de batismo, nos espa&amp;ccedil;os p&amp;uacute;blicos das cidades. As ruas viram rios de gente, nas cidades secas, como Lalibela durante as epifanias de janeiro, n&amp;atilde;o h&amp;aacute; outro rio. Ningu&amp;eacute;m reza em un&amp;iacute;ssono, ningu&amp;eacute;m canta em monoc&amp;oacute;rdio, o esp&amp;iacute;rito carnavalesco entra na prociss&amp;atilde;o, mesmo que dissimulado, esta maneira africana de tornar quem passa, parte. Cada um traz sua melhor roupa, seu melhor penteado, suas melhores tran&amp;ccedil;as, suas melhores amarras, suas melhores mandingas, suas melhores antenas.&lt;/p&gt;
&lt;p align=&quot;JUSTIFY&quot;&gt;Os et&amp;iacute;opes s&amp;atilde;o fios soltos na conex&amp;atilde;o com os al&amp;eacute;ns &amp;ndash; e com os outroras. O deserto d&amp;aacute; sede, mas tamb&amp;eacute;m d&amp;aacute; frio e uma certa obcess&amp;atilde;o. Com panos brancos feitos de algod&amp;atilde;o e poeira eles atravessam montanhas, estradas, rios, carregando nas costas, nas mulas, nos camelos suas necessidades. Como no tempo da rainha de Sab&amp;aacute;. Tal qual. Nas ocas de barro e bambu comem suas injeras, esvaziam os &amp;uacute;beres das cabras e depois tomam a estrada carregando milho seco, tef, barris de &amp;aacute;gua, algod&amp;atilde;o. Est&amp;atilde;o sempre carregados. Nasceram para carregar. Isso d&amp;aacute; um ar cansado, mas tamb&amp;eacute;m forte e alongado. Transmitem carga. As mulheres v&amp;atilde;o ao ch&amp;atilde;o para colher ervas daninhas do meio da planta&amp;ccedil;&amp;atilde;o, sem sequer dobrar o joelho, e ainda com o filho pequeno atado &amp;agrave;s costas. E tomam as estradas, as estradas mesmo pavimentadas s&amp;atilde;o trilhas dos andarilhos, j&amp;aacute; que os carros pedem licen&amp;ccedil;a buzinando e j&amp;aacute; que a maioria deles est&amp;aacute; longe de ter um carro, ou computador, s&amp;oacute; celular quase todo mundo tem, a &amp;uacute;nica revolu&amp;ccedil;&amp;atilde;o industrial &amp;oacute;bvia, e radinhos a pilha. N&amp;atilde;o se v&amp;ecirc; facilmente os trabalhadores vindo da f&amp;aacute;brica, nem muito lixo eletr&amp;ocirc;nico. Eti&amp;oacute;pia vai passar diretamente para o s&amp;eacute;culo XXI sem esteira nem uniforme? A estrada serpenteia montanha abaixo, de um vilarejo at&amp;eacute; o rio que na seca seca. A cada hora do dia, centenas de pessoas percorrem o asfalto ou atalham pelos desfiladeiros. S&amp;atilde;o umas cenas t&amp;atilde;o modernas quanto as dos homens de terno circulando pelas bolsas de valores mas parecem b&amp;iacute;blicas, arcaicas, pr&amp;eacute;-evang&amp;eacute;licas. Antes de Menelik, depois de Menelik, as pontas se amarram, afinal os fios est&amp;atilde;o soltos. Os et&amp;iacute;opes, ao contr&amp;aacute;rio de tantos brancos, n&amp;atilde;o consideram que eles sejam mais modernos. Percorrem suas estradas, correm para cima e para baixo. S&amp;atilde;o maratonistas. Ou ent&amp;atilde;o n&amp;atilde;o &amp;eacute; no terreno que eles aprenderam a correr, &amp;eacute; no sangue bastardo, ecl&amp;eacute;tico, devoto e desviado: n&amp;atilde;o s&amp;atilde;o os Jamaicanos os que correm melhor as pequenas dist&amp;acirc;ncias?&lt;/p&gt;
&lt;p align=&quot;JUSTIFY&quot;&gt;Os jamaicanos descendentes dos escravos, olham para a Eti&amp;oacute;pia como quem olha para sua hist&amp;oacute;ria. Eles vieram de l&amp;aacute;. Hist&amp;oacute;ria saqueada, hist&amp;oacute;ria escravizada. Qual &amp;eacute; a hist&amp;oacute;ria dos escravos no Brasil? S&amp;atilde;o as brumas, as correntes caudalosas de vers&amp;otilde;es entrela&amp;ccedil;adas, sem p&amp;eacute; nem cabe&amp;ccedil;a, j&amp;aacute; que o p&amp;eacute; e a cabe&amp;ccedil;a s&amp;atilde;o brancos e modernos. N&amp;atilde;o s&amp;atilde;o como os imigrantes europeus, cheios de genealogias, de paisagens, de express&amp;otilde;es &amp;ndash; pensem nos imigrantes europeus que nem soubessem a diferen&amp;ccedil;a entre as tribos holandesas e as tribos polonesas, nem soubessem que l&amp;iacute;ngua falam, nem soubessem que ares trazem nas entranhas, que miasmas habitam suas juntas, que gosto ardia na boca de suas m&amp;atilde;es quando elas os pariram. Arrancados os miasmas dos africanos, escravizados seus m&amp;uacute;sculos, eles deveriam ficar apenas pretos, sem cor &amp;ndash; mas n&amp;atilde;o ficam, ficam lenda. H&amp;aacute; mais verdades de carne e osso do que pensa o v&amp;atilde;o ordenamento geneal&amp;oacute;gico. Eles dan&amp;ccedil;am, eles cultivam lendas com baob&amp;aacute;s, com flamboiants, com savanas e longas estepes. Desist&amp;oacute;rias, breves, abruptas, repetidas. N&amp;atilde;o desistem. Contam as favas a contrapelo. Brumas, n&amp;eacute;voas, uma falha geol&amp;oacute;gica. E, no mesmo continente destas alucina&amp;ccedil;&amp;otilde;es, a Eti&amp;oacute;pia.&lt;/p&gt;
&lt;p align=&quot;JUSTIFY&quot;&gt;As estradas que levam ao sul v&amp;atilde;o ao encontro dos povos tradicionais. Com suas Kalashnikovs, seus ares tribais, suas ocas de barro e bambu. Assim que vivem. Pintam rosto e corpo para os turistas pagarem para as fotos. N&amp;atilde;o pagam impostos e n&amp;atilde;o sabem do que se trata quando lhes perguntam sobre a Eti&amp;oacute;pia. N&amp;atilde;o se sentem et&amp;iacute;opes, sentem-se outra coisa, fronteira n&amp;atilde;o foi ideia deles, apesar de saberem que atravessar a fronteira pode lhes causar danos. Suportam a quantidade de turistas que lhes v&amp;atilde;o ver todos os dias, mas n&amp;atilde;o por muito tempo. Logo fecham a cara e produzem alguma cena agressiva, que afasta as visitas. Prev&amp;ecirc;em que o barulho dos motores n&amp;atilde;o representa somente uma fase, mas uma perman&amp;ecirc;ncia e que o barulho veio para ficar. Se ouri&amp;ccedil;am. Como concatenar uma forma de vida greg&amp;aacute;ria na savana quando sabes que &amp;eacute;s tu o objeto visado? Tu a girafa, o elefante, a fera? Tu, o sobrevivente que por tanto tempo conseguiu fugir das armadilhas brancas, do tr&amp;aacute;fico de escravos, das durezas da seca, das amea&amp;ccedil;as da floresta, das enchentes do rio, das tribos inimigas, das sedu&amp;ccedil;&amp;otilde;es da cidade, de repente tornado fera enjaulada? Tua aldeia cercada, tua casa entretenimento? Que vingan&amp;ccedil;a se perpetraria ai? Qual rea&amp;ccedil;&amp;atilde;o poss&amp;iacute;vel quando o objeto da tua hostilidade j&amp;aacute; se tornou teu v&amp;iacute;cio, tua sobreviv&amp;ecirc;ncia e teu cotidiano? Cobrar pelas fotos? Ser hostil? Acatar a transforma&amp;ccedil;&amp;atilde;o impassivelmente? N&amp;atilde;o h&amp;aacute; nada de pass&amp;iacute;vel naquelas tribos. Apesar da simpatia e da espontaneidade, v&amp;ecirc;-se tambem homens e mulheres acuados, que sabem mais que todos aventureiros, que chegaram num limite. Escuta, puxaram a descarga &amp;ndash; para onde vazar? Como resistir &amp;agrave; f&amp;uacute;ria branca que transforma tribos com c&amp;eacute;u, terra e tudo em museu, em parque tem&amp;aacute;tico, em jardim de curiosidades,? Os hamers pulam em cima dos touros para transitarem atrav&amp;eacute;s de seu ritual de maturidade: seguem pulando do mesmo jeito h&amp;aacute; algumas gera&amp;ccedil;&amp;otilde;es talvez, mas agora convocam menos esp&amp;iacute;ritos animais, convocam turistas. J&amp;aacute; n&amp;atilde;o serve mais mover as montanhas, os turistas atravessam todas elas para tirar uma fotografia, para seguir uma recomenda&amp;ccedil;&amp;atilde;o do seu &lt;i&gt;Lonely Planet&lt;/i&gt;. A terra empoeirada de brumas &amp;eacute; destino tur&amp;iacute;stico. O mundo por fim descobre a hist&amp;oacute;ria da Eti&amp;oacute;pia. Esse reconhecimento &amp;eacute; muito importante, &amp;eacute; o desbloqueio de um conhecimento humano a s&amp;eacute;culos ignorado pelos historiadores, pelos brancos, pelos oficiais. Mas esse reconhecimento tem um alto preco. O que sobra pra Eti&amp;oacute;pia?&lt;/p&gt;
&lt;p align=&quot;JUSTIFY&quot;&gt;Sobram os chineses. Projetaram, financiaram e puseram tijolo sobre tijolo de um colosso arquitet&amp;ocirc;nico no centro de Addis Abebe dedicado a Uni&amp;atilde;o Africana. Depois de tantos anos de negocia&amp;ccedil;&amp;atilde;o de Heile Selassie com o imp&amp;eacute;rio americano, s&amp;atilde;o os chineses que v&amp;atilde;o reconhecer e apostar na capital da Eti&amp;oacute;pia como capital diplom&amp;aacute;tica da &amp;Aacute;frica. H&amp;aacute; controversias, mas o investimento foi feito, grandiosamente. Tamb&amp;eacute;m o novo parceiro se encarregou das estradas e de outras constru&amp;ccedil;&amp;otilde;es, trazendo para os limites territoriais da antiga Abiss&amp;iacute;nia milhares de trabalhadores amarelos, j&amp;aacute; bem acostumados com os resultados da revolu&amp;ccedil;&amp;atilde;o industrial. S&amp;atilde;o os novos colonos, que ao contr&amp;aacute;rio dos colonos brancos que gostavam de tracar mapas na &amp;Aacute;frica e dividi-las entre si, os amarelos promovem a Uni&amp;atilde;o Africana. Mesmo na &amp;Aacute;frica sem Khadafi. Pretos e amarelos &amp;ndash; eles sabem que os brancos ainda pegam, matam e comem. Tiraram Khadafi da cena quando ele come&amp;ccedil;ou a incomodar demais a Europa em desfiladeiro com sua megalomania. A &amp;Aacute;frica tem recursos: &amp;aacute;gua, petr&amp;oacute;leo, ur&amp;acirc;nio, diamante, ouro. S&amp;oacute; n&amp;atilde;o cabe direito na hist&amp;oacute;ria oficial. Seus recursos naturais s&amp;atilde;o alvo de disputas dos velhos e dos novos imp&amp;eacute;rios. Poderia a Uni&amp;atilde;o Africana se fortalecer por si mesma, ou s&amp;oacute; vai ficar ensaiando?&lt;/p&gt;
&lt;p align=&quot;JUSTIFY&quot;&gt;Uma hist&amp;oacute;ria bastarda, de latrina e de descarga da humanidade branca sobrevive, fermenta, se fortalece; atentemos nos seus pr&amp;oacute;ximos passos, no seu projeto de desenvolvimento industrial tardio, vejamos se repete as mesmas idiossincrasias dos referentes brancos e amarelos ou se toma outro rumo devido sua inabilidade para cumprir com as normas de seguran&amp;ccedil;a dos corpos Ford. Tem dias que o refrigerador n&amp;atilde;o funciona, a luz acaba, o telefone emudece e a descarga vaza. A &amp;Aacute;frica &amp;eacute; bumerang lan&amp;ccedil;ado. A Eti&amp;oacute;pia lan&amp;ccedil;ou os primeiros exemplares da esp&amp;eacute;cie, quem &amp;eacute; o bastardo?&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;*&lt;a href=&quot;http://mutgamb.org/blog/Etiopia-e-Fabi-Borges&quot; target=&quot;_blank&quot; rel=&quot;nofollow&quot;&gt;leia mais sobre a Eti&amp;oacute;pia nesse post&amp;nbsp;&lt;/a&gt;&lt;a href=&quot;https://picasaweb.google.com/108094216176169619701/AnarqueologiaNaEtiopia&quot; target=&quot;_blank&quot; rel=&quot;nofollow&quot;&gt;e veja mais fotos lindas aqui&lt;/a&gt;&lt;/p&gt;</description>
 <comments>http://mutgamb.org/blog/Lucy-e-da-Etiopia-%E2%80%93-quem-e-bastardo#comments</comments>
 <category domain="http://mutgamb.org/tag/etiopia">etiopia</category>
 <category domain="http://mutgamb.org/tag/fabiane-borges">fabiane borges</category>
 <category domain="http://mutgamb.org/tag/hilan-bensusan">hilan bensusan</category>
 <category domain="http://mutgamb.org/tag/itinerancia">itinerância</category>
 <category domain="http://mutgamb.org/tag/nomadismo">nomadismo</category>
 <wfw:commentRss>http://mutgamb.org/crss/node/540</wfw:commentRss>
 <pubDate>Sat, 04 Feb 2012 10:10:42 +0000</pubDate>
 <dc:creator>mairabegalli</dc:creator>
 <guid isPermaLink="false">540 at http://mutgamb.org</guid>
</item>
<item>
 <title>A Etiópia e Fabi Borges</title>
 <link>http://mutgamb.org/blog/Etiopia-e-Fabi-Borges</link>
 <description>&lt;p&gt;&lt;a href=&quot;http://catahistorias.wordpress.com/&quot; target=&quot;_blank&quot; rel=&quot;nofollow&quot;&gt;Fabi Borges&lt;/a&gt; viajou para Eti&amp;oacute;pia e tem compartilhado percep&amp;ccedil;&amp;otilde;es surpreendentes. Fabi ficou de selecionar algumas imagens para o MutGamb&amp;nbsp; (&lt;a href=&quot;http://www.facebook.com/media/set/?set=a.10150524171719470.400600.598339469&amp;amp;type=1&amp;amp;l=3aff9be5fe&quot; target=&quot;_blank&quot; rel=&quot;nofollow&quot;&gt;algumas delas podem ser vistas no Faceboook)&lt;/a&gt; e escrever algo.&amp;nbsp; Enquanto isso publico alguns recortes do que ela j&amp;aacute; postou na listas, como o document&amp;aacute;rio sobre os Mursis sobre beleza e tradi&amp;ccedil;&amp;atilde;o:&lt;/p&gt;
&lt;p class=&quot;rtecenter&quot;&gt;&lt;iframe allowfullscreen=&quot;&quot; frameborder=&quot;0&quot; height=&quot;315&quot; src=&quot;http://www.youtube.com/embed/C1MinOuG2Ro&quot; width=&quot;420&quot;&gt;&lt;/iframe&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;E a impress&amp;atilde;o dela, que n&amp;atilde;o &amp;eacute; um texto (segundo o pr&amp;oacute;prio t&amp;iacute;tulo da thread que foi postada):&lt;/p&gt;
&lt;blockquote&gt;
	&lt;p&gt;A hist&amp;oacute;ria do mundo pode ser contada pela Eti&amp;oacute;pia. Lugar que o catolicismo n&amp;atilde;o triunfou, o islamismo n&amp;atilde;o triunfou, judaismo n&amp;atilde;o triunfou, mas conseguiram misturar tudo isso... Conseguiram correr com quase todos os inimigos, e na pior das hip&amp;oacute;teses, separaram a parte do pa&amp;iacute;s colonizado pelo catolicismo italino, Eritrea. Eles s&amp;atilde;o muito orgulhosos da pr&amp;oacute;pria hist&amp;oacute;ria, com suas igrejas constru&amp;iacute;das nas rochas e nas montanhas, um cristianismo com Jesus negro, Maria negra, pombinhas negras. N&amp;atilde;o d&amp;aacute; pra separar muito o cristianismo ortodoxo da Eti&amp;oacute;pia do norte, da hist&amp;oacute;ria do&amp;nbsp; povo. Eles te perguntam: &amp;quot;Onde Jesus esteve dos 20 aos 30 anos?&amp;quot; Sorriem e dizem: &amp;quot;Na etiopia, of course! rssss...&amp;quot; Mas fora religi&amp;atilde;o, e apesar de n&amp;atilde;o usarem burcas, todos estes tecidos brancos que cobrem o corpo de homens e mulheres s&amp;oacute; tem sentido no deserto.&lt;/p&gt;
	&lt;p&gt;Um branco feito de p&amp;oacute;, de terra do deserto, com camelos e burros carregando &amp;aacute;gua e pequenas agriculturas. A maioria deles lamentam a morte do Kadafi, dizendo, ele era um l&amp;iacute;der bom. Nos ajudava. Tamb&amp;eacute;m suspeitam da revolu&amp;ccedil;&amp;atilde;o comunista que tomou conta do pa&amp;iacute;s em 1974, dizendo: &amp;quot;Mas pra qu&amp;ecirc; acabar com toda mitologia? com toda nossa cren&amp;ccedil;a e matar nosso rei?&amp;quot; E pra arrematar dizem: &amp;quot;N&amp;oacute;s nunca fomos colonizados, essa &amp;eacute; nossa pobreza e nossa honra. Mas tudo isso &amp;eacute; a parte norte, estamos descendo pro sul, para aqueles que nunca foram submetidos nem pelo cristianismo ortodoxo, que pousam para os turistas com suas m&amp;aacute;scaras m&amp;aacute;gicas e desenvolvem ainda uma outra hist&amp;oacute;ria, a hist&amp;oacute;ria dos que preferem ser &amp;iacute;ndios, mesmo fakes pros viajeiros, sem abrir m&amp;atilde;o do seu modo de vida.&lt;/p&gt;
	&lt;p&gt;Por exemplo? Pagar impostos. No way. N&amp;atilde;o &amp;eacute; deslumbramento, &amp;eacute; identifica&amp;ccedil;&amp;atilde;o. Acho que os et&amp;iacute;opes do sul e os &amp;iacute;ndios do norte do brasil deveriam fazer uns encontros mesmo! Mas enfim...&lt;/p&gt;
	&lt;p&gt;Somente aprendendo e perdendo tudo pelo caminho. O deserto d&amp;aacute; sede, mas tamb&amp;eacute;m d&amp;aacute; frio, e uma obsess&amp;atilde;o no olhar. Depois de passarem por tantas coisas me preocupa que sejam massacrados pelo turismo, com seus carros fortes, seus &amp;ocirc;nibus cheios de gente, s&amp;oacute; preocupados com museus e consumo, passando por cima dessa hist&amp;oacute;ria nobre que tanto encanta a gente. A China est&amp;aacute; cuidando de tudo agora, das suas roupas e das suas estradas. Isso d&amp;aacute; medo tambem, e&lt;span&gt;&lt;font color=&quot;#888888&quot;&gt;..&lt;span&gt;.&lt;/span&gt;&lt;/font&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
	&lt;p&gt;Salom&amp;atilde;o e Sheba, que hist&amp;oacute;ria bonita. A rainha atrevida o rei galinha e esot&amp;eacute;rico. Imagino a promesssa na cama: Salom&amp;atilde;o, honra esse acasalamento, levarei o teu nome no ventre e dentro dele a hist&amp;oacute;ria de um povo! Honrarei rainha de Sheba! Eu prometo. Essa foda n&amp;atilde;o ser&amp;aacute; em v&amp;atilde;o.&lt;/p&gt;
	&lt;p&gt;Existem v&amp;aacute;rios templos pag&amp;atilde;os, feitos de pedra, que foram escavados por arqueologistas franceses somente em 1960, nesses templos foram achadas pedras com a imagem da lua e da terra. Vimos algumas, que eram as for&amp;ccedil;as cultuadas antes do cristianismo. Mas o que me encanta ainda no cristianismo et&amp;iacute;ope &amp;eacute; que ele &amp;eacute; muito antigo e muito misturado ao juda&amp;iacute;smo antigo. Alguns relatos&lt;br /&gt;
		dizem que eles se apaixonaram por Jesus, mesmo antes da morte dele, por ele andar pelas terras.&lt;/p&gt;
	&lt;p&gt;Estou pesquisando o Esp&amp;iacute;rito Santo no momento, por isso estou interessada no cristianismo ortodoxo et&amp;iacute;ope. &amp;Eacute; interessante saber que na Eti&amp;oacute;pia nasce o rio Nilo, &amp;eacute; a terra do &amp;Eacute;den (jardim),&lt;br /&gt;
		assim como a Terra Prometida, para onde os rastas retornaram e constru&amp;iacute;ram uma comunidade &lt;a href=&quot;http://www.guardian.co.uk/world/video/2010/jul/23/rastafarians-shashamane-ethiopia&quot; target=&quot;_blank&quot; rel=&quot;nofollow&quot;&gt;rasta&lt;/a&gt; internacional. Aos poucos esse universo pr&amp;eacute;-monote&amp;iacute;sta vai se revelando pra n&amp;oacute;s - mas a alian&amp;ccedil;a &lt;a href=&quot;http://pt.wikipedia.org/wiki/Rainha_de_Sab%C3%A1&quot; target=&quot;_blank&quot; rel=&quot;nofollow&quot;&gt;Salom&amp;atilde;o-Rainha de Sab&amp;aacute;&lt;/a&gt;, cerca de cinco s&amp;eacute;culos antes de Cristo, foi determinante para a mudan&amp;ccedil;a de paradigma da antiga Abiss&amp;iacute;nia.&lt;/p&gt;
&lt;/blockquote&gt;</description>
 <comments>http://mutgamb.org/blog/Etiopia-e-Fabi-Borges#comments</comments>
 <category domain="http://mutgamb.org/tag/etiopia">etiopia</category>
 <category domain="http://mutgamb.org/tag/fabi-borges">fabi borges</category>
 <category domain="http://mutgamb.org/tag/nomadismo">nomadismo</category>
 <wfw:commentRss>http://mutgamb.org/crss/node/538</wfw:commentRss>
 <pubDate>Fri, 03 Feb 2012 09:44:33 +0000</pubDate>
 <dc:creator>mairabegalli</dc:creator>
 <guid isPermaLink="false">538 at http://mutgamb.org</guid>
</item>
</channel>
</rss>
